Como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino. Exercer a minha curiosidade de forma correta é um direito que tenho como gente e a que corresponde o dever de lutar por ele, o direito à curiosidade. Com a curiosidade domesticada posso alcançar a memorização mecânica do perfil deste ou daquele objeto, mas não o aprendizado real ou o conhecimento cabal do objeto. A construção ou a produção do conhecimento do objeto implica o exercício da curiosidade, sua capacidade crítica de “tomar distância” do objeto, de observá-lo, de delimitá-lo, de cindi-lo, de “cercar” o objeto ou fazer sua aproximação metódica, sua capacidade de comparar, de perguntar.
Estimular a pergunta, a reflexão crítica sobre a própria pergunta, o que se pretende com esta ou aquela pergunta em lugar da passividade em face das explicações discursivas do professor, espécies de respostas a perguntas que não foram feitas. Isso não significa realmente que devamos reduzir a atividade docente, em nome da defesa da curiosidade necessária, a puro vai- e-vem de perguntas e respostas, que burocraticamente se esterilizam. A dialogicidade não nega a validade de momentos explicativos, narrativos em que o professor expõe ou fala do objeto. O fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não-apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos.
[...]
O exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar, na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser. Um ruído, por exemplo, pode provocar minha curiosidade. Observo o espaço onde parece que se está verificando. Aguço o ouvido. Procuro comparar com outro ruído cuja razão de ser já conheço. Investigo melhor o espaço. Admito hipóteses várias em torno da possível origem do ruído. Elimino algumas até que chego a sua explicação.
Satisfeita uma curiosidade, a capacidade de inquietar-me e buscar continua em pé. Não haveria existência humana sem a abertura de nosso ser ao mundo, sem a transitividade de nossa consciência.
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Um dos saberes fundamentais à minha prática educativo-crítica é o que me adverte da necessária promoção da curiosidade espontânea para a curiosidade epistemológica.
(Os grifos em negrito são nossos.)
Paulo Freire. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. pp. 85, 86, 88.

Nossa mensagem de boas-vindas tem muito mais a ver com uma evocação ao espírito das boas idéias, aos desejos despreendidos, como vontade irrefreada de fazer, de investir-se, de aprofundar-se. Nossa proposta para a etapa responderá a esse tema, o propósito do desafio e o caminho da motivação.
Em nossos projetos de aprendizagem faremos uma trajetória de questionamentos, com a coadjuvante e necessária busca de um sem-número de possibilidades de resposta. O Seminário Integrador, pois, trará justamente uma investigação que promova não só o comportamento, mas o caráter epistemologicamente curioso, como grifa em itálico Freire.
Esperamos que o trabalho acadêmico vá além do cumprir tarefas e prontuários, do reproduzir estéril: que seja um movimento de invenção, curiosidade, busca, de travessia da caverna pela obscuridade, a busca de luz, de desejos desejantes. Também é uma proposta de desafio e prazer: de encontrar as respostas, de descobrir novas formas e possibilidades, de produzir idéias que nos façam ver nossas próprias idéias, de não deixar o mundo apequenar-se, de penetrar nas coisas, de apropriar-se das nossas capacidades, do nosso discurso, tornando válidas as nossas próprias questões, dando-lhes o crédito de verdadeiras, importantes, necessárias.
Façamos, assim, nosso bordão a curiosidade – o questionamento, a dúvida gerando processos de conhecimento. Deixar as certezas em xeque, olhar o já visto como novo, aceitar as próprias dúvidas, buscar a falta, incursionar no avesso da obviedade, que está ao alcance e na proporção do nosso desejo.
Grande abraço,
Equipe do Seminário Integrador de Três Cachoeiras
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